Na peugada de um sourcing mais ético

O excesso de capacidade produtiva e as desigualdades no poder de produtores e compradores está a minar a cadeia de aprovisionamento do denim e da moda em geral. Uma situação exposta pela crise de Covid-19, que, contudo, acredita um novo estudo, pode abrir uma janela para construir uma indústria mais ética.

O estudo “Ending Unethical Brand and Retailer Behavior – The Denim Supply Chain Speaks Up”, comissionado pela associação sem fins lucrativos Transformers Foundation, procurou identificar os motivos pelos quais as marcas, retalhistas e importadores sentiram que podiam abandonar os seus compromissos para com os fornecedores de denim durante a pandemia.

Com base em entrevistas com fornecedores, especialistas na cadeia de aprovisionamento, organizações governamentais e ativistas, também aponta ações e soluções que podem ser implementados para corrigir este desequilíbrio de poder e criar uma indústria ética no denim e jeans para o futuro.

«A nossa principal esperança é inspirar, através da indústria do denim, outros sectores para enveredarem por uma mudança a longo prazo», explicou, segundo o just-style.com, Marzia Lanfranchi, diretora de inteligência da Transformers Foundation, durante o webinar de apresentação do estudo, no passado dia 26 de outubro.

Os mais pequenos são mais éticos

Uma das principais conclusões é que os fornecedores preferem criar relações de negócio com compradores mais pequenos e independentes do que com as grandes multinacionais.

Por isso, no pós-pandemia, a diversificação é a chave e devem evitar ficar dependentes de apenas um grande cliente que seja responsável pela maioria das encomendas. Além disso, os fornecedores devem procurar trabalhar com marcas independentes e detidas por privados que não estão cotadas em bolsa ou sejam detidas por empresas de private equity ou uma holding.

«O meu grande ato de seleção foi renunciar trabalhar com retalhistas de fast fashion», afirmou Alberto Candiani, da italiana Candiani, aos investigadores que fizeram o estudo. «O padrão que eu vejo é que as grandes empresas estão a agir pior do que as marcas independentes», acrescentou.

[©Pxhere]
Para Sanjeev Bahl, fundador e CEO da produtora de denim sustentável Saitex, a visão e mentalidade do fundador diz muito sobre a forma como a marca ou retalhista se comporta com os seus parceiros. «Ele ou ela é que realmente inculca a filosofia do negócio. À medida que a organização cresce e fica dependente de investidores, os objetivos começam a mudar. O capitalismo ocupa o primeiro lugar, enquanto a justiça social e ambiental fica para trás», apontou.

Sobrecapacidade

O estudo também realça a questão do excesso de capacidade na indústria do denim. «Há mais denim produzido do que consumido, há mais confeções do que as necessárias – isso cria uma espécie de leilão para tudo e muitas marcas adoram isso e colocam uns contra os outros para espremerem as condições, os termos, o que for, pelo que todo o risco financeiro fica com os fornecedores, porque uma das coisas que é negociada são condições abertas», referiu Andrew Olah, fundador da Transformers Foundation, durante o webinar. «Tudo isto teve impacto durante o Covid e em muitos casos as marcas não precisavam do que encomendaram. Devolveram aos fornecedores e passou a ser um problema dos fornecedores e eles não têm estrutura financeira para lidar com isso», adiantou.

O excesso de capacidade também significa que os fornecedores acabam por aceitar encomendas de clientes pouco éticos ou em dificuldades.

Jose Royo, da Tejidos Royo, disse aos autores do estudo que não diz não a clientes com risco, «porque esse cliente pode mudar a situação de uma fábrica. De repente, um destes clientes pode fazer uma grande encomenda. Talvez não tenhamos tido lucro, mas pelo menos estamos a pagar os custos fixos da empresa».

Marcas, retalhistas e importadores também aproveitam a sobreprodução para se envolverem numa espécie de contra-sourcing, na qual pegam numa amostra de um tecido novo e inovador de uma empresa de topo e a entregam a outra para o copiar, para criar concorrência e baixar os preços dos tecidos.

«Efetivamente, há uma tentativa de aproveitar a sobrecapacidade na indústria para baixar os preços ao copiar a propriedade intelectual de outras fábricas», disse uma empresa aos autores. «Em alguns casos, recebemos 20 tecidos de um cliente para fazer o contra-sourcing. Mesmo marcas reputadas têm este tipo de comportamento», assegurou.

Candiani [©Eco-Age]
E todo o risco financeiro é passado aos fornecedores. «Os conglomerados multinacionais usaram o seu poder para passarem a quantidade de responsabilidade financeira que têm na produção de jeans para quase nada», sublinha o estudo. «Não depositam um sinal para a encomenda. Em vez disso, assinam um contrato com a promessa de pagamento da encomenda dentro de um prazo determinado depois dos bens terem sido enviados ou entregues. Os fornecedores pegam neste compromisso e encomendam matérias-primas e pagam aos trabalhadores que produzem o denim e os jeans», acrescenta.

De acordo com um estudo especial da iniciativa Better Buying, com base no feedback dos fornecedores no quarto trimestre de 2019, entre 784 fornecedores, 40% deram conta de prazos de pagamento a mais de 60 dias, 2,4% de 120 dias ou mais e 31% revelaram que, em média, os pagamentos vieram 26 dias atrasados.

Comportamentos perigosos

«Para mim, certos padrões de comportamento não são apenas pouco éticos como são pouco inteligentes», considera Averis Seferian, presidente e CEO da Worldwide Responsible Accredited Production (WRAP). «Como é que um grande retalhista, por um lado, diz às fábricas que não tem dinheiro para pagar estas encomendas e, por outro lado, distribui dividendos pelos seus acionistas? Os financeiros olham apenas para um certo conjunto de informações, tomando decisões com base nessa informação, e não estão a ver o cenário completo. As organizações e os compradores que fizeram um melhor trabalho nos últimos anos de integrar a responsabilidade social diretamente no seu processo de decisão de sourcing estão a fazer escolhas muito mais acertadas», destacou.

Outros fatores que levaram a «uma cadeia de aprovisionamento de denim estragada», segundo o estudo, inclui a recusa por parte das marcas das suas próprias fragilidades – isto é, não serem responsáveis pelas encomendas de matérias-primas colocadas em seu nome pelos fornecedores – e a sua tendência para cobrar promoções e estornos aos fornecedores. Os fornecedores também não têm poder legal, com a maior parte dos problemas a começarem na fase de assinatura de contratos.

Durante a Covid, muitas marcas cancelaram as encomendas citando a cláusula de força maior, que lhes permite unilateralmente cancelar encomendas a qualquer momento por razões fora do seu controlo. Mas a definição é tão vaga que quase pode incluir qualquer circunstância. «Os fornecedores assinam estes contratos com vazios legais pela mesma razão que fazem todas as outras concessões: o poder está todo com as marcas e uma indústria com demasiada capacidade significa que há sempre outro fornecedor disponível para assinar», constatam os autores.

O estudo refere que os compromissos voluntários estão a falhar porque nenhuma organização cobra a responsabilidade às marcas e retalhistas.

Possíveis soluções

A Transformation Foundation propõe diversas soluções, a curto e longo prazo, através das quais espera levar a indústria do denim – e a indústria da moda em geral – a partilhar os lucros e os riscos ao longo da cadeia de aprovisionamento.

Os três objetivos principais são retificar a iniquidade de poder entre os fornecedores e as marcas, retalhistas e importadores, criar consequências por comportamentos não éticos e dar apoio e espaço para os fornecedores poderem vocalizar as suas preocupações.

Para isso, propõe a criação de um código de conduta para as marcas, retalhistas e importadores, a criação de um grupo de trabalho a curto prazo para os fornecedores poderem expressar-se a uma só voz, facilitar a formação a longo prazo de um grupo de trabalho independente que ligue os fornecedores a aconselhamento jurídico e formação sobre as melhores práticas.

Tejidos Royo [©Tejidos Royo]
Para as marcas, retalhistas e importadores, a Transformation Foundation apela, entre outras coisas, a que assumam a responsabilidade pelos tecidos e acessórios encomendados para responder a uma encomenda, criem relações de longo prazo com os fornecedores e as fábricas, apoiem programas de desenvolvimento dos fornecedores, apoiem a transparência e a legislação de diligências prévias e sejam honestos com os consumidores sobre os desafios que a empresa está a enfrentar e as escolhas que tem que fazer.

«A cadeia de aprovisionamento tem agora a oportunidade de trabalhar em conjunto para fazer as mudanças que não são possíveis fazer quando se está sozinho», referiu Andrew Olah. «Este estudo identifica e esclarece os muitos problemas que se podem resolver com colaboração e intenções partilhadas, não apenas com as confeções e tecelagens, mas com associações não-governamentais, governos, marcas, retalhistas, importadores e as pessoas que adoram usar denim. Este estudo é apenas um primeiro passo, vamos mostrar mais nos próximos meses», anunciou o fundador da Transformers Foundation.

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