O futuro mais verde da ITV

A sustentabilidade será um dos trunfos da indústria têxtil e vestuário portuguesa, que, à semelhança de outros sectores, terá de rever os seus modelos de negócio e responder às preocupações em mudança dos consumidores, como apontaram os intervenientes no Fórum da Indústria Têxtil, dedicado aos cenários pós-Covid.

Num auditório anormalmente vazio e silencioso do CITEVE, mas com centenas de pessoas atentas aos seus ecrãs para perceberem o que vem depois da pandemia, o Fórum da Indústria Têxtil, organizado pela ATP – Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, procurou antecipar, na tarde de 26 de novembro, os cenários pós-Covid para a ITV portuguesa.

«Para podermos fazer uma boa recuperação desta crise de saúde pública e desta crise económica e social fortíssima, o investimento, a iniciativa empresarial, a alteração dos modelos de negócio é absolutamente decisiva», começou por afirmar o economista Augusto Mateus, key-speaker nesta edição do Fórum da Indústria Têxtil, que foi enumerando as mudanças e os caminhos que o futuro pós-Covid parecem abrir.

Numa crise «que é basicamente um choque do desequilíbrio dos nossos modelos de desenvolvimento», uma das coisas que sobressai é a importância da sustentabilidade, no presente e no futuro, revelou na sua apresentação, realizada por videoconferência. «Temos que cuidar de cada empresa, temos que cuidar de cada consumidor mas temos que cuidar das cidades e do planeta», afirmou. «Hoje a economia circular não é um tema de meia dúzia de pessoas» e há «a perceção de que a criação do modelo sustentável em desenvolvimento traz muitíssimo muito mais valor do que custos», adiantou o consultor estratégico da EY.

Com os consumidores, cada vez mais urbanos, a moverem-se «por experiências, por relacionamentos humanos e sociais onde o local e o global estão cada vez mais articulados», surgem oportunidades para a indústria têxtil e vestuário – que, como referiu, estão alavancadas em atividades industriais mas são indústrias inovadoras que se estão a transformar «em indústrias da criatividade, da moda, de comunicação, do design». Segundo o economista, «as indústrias têxteis e de vestuário são atividades muitas vezes incompreendidas e injustiçadas, acusadas um pouco estupidamente de serem tradicionais, antigas ou pouco importantes, porque elas próprias têm sabido mostrar que em todas questões do desenvolvimento económico e social estão presentes». Augusto Mateus destacou ainda a evolução dos têxteis técnicos e a sua entrada em diversas áreas da vida quotidiana, abrindo horizontes para a expansão desta indústria. «As casas mudaram e vão mudar muito e, obviamente, para os têxteis e vestuário representa uma oportunidade muitíssimo significativa», exemplificou.

Olhar para a frente

Apesar de alertar para um 2021 «muitíssimo difícil, de grande exigência», o economista revelou-se otimista para o futuro da ITV. «Não interessa muito se a empresa é pequena, muito pequena, média ou grande. O que interessa é que sejam inovadoras, explorem os novos vetores competitivos da sustentabilidade, da circularidade, da economia e desenvolvimento e juntem a isso aquilo que é o orgulho que todos devem ter no que fizeram neste país ao longo dos últimos 30/40 anos, em que criaram riqueza em dimensão significativa», apontou.

Augusto Mateus

Olhar para a frente é, contudo, fundamental. «Têm que ser coisas viradas para o futuro e não para o passado. Não é fazer o que devíamos ter feito há 15 ou 20 anos. Temos de fazer o que se calhar íamos fazer daqui a 20 ou 30 anos», salientou. «Há muito para fazer, as oportunidades são muitas e eu tenho uma enorme confiança na capacidade do capital humano, na capacidade empresarial que aqueles que têm feito o presente e que fizeram e passado destas indústrias podem garantir nesta saída da Covid», resumiu Augusto Mateus.

No painel que se seguiu, a sustentabilidade foi um dos tópicos abordados. Vítor Abreu, CEO da Endutex, confessou ser «muito cético» em relação à localização dos centros de produção próximos dos centros de consumo e frisou que a descarbonização «é muitas vezes um fator de competitividade» que não é respeitado por todos de forma igual. «É frustrante às vezes ver que nos pedem para concorrermos com armas desiguais para determinados países que não têm as mesmas regras, mas que no fim estão exatamente no mesmo mercado e talvez até com vantagens competitivas», indicou.

E embora a investigação e desenvolvimento seja importante para a Endutex, que exporta 80% da sua produção, «não podemos esquecer da componente competitividade custos, porque por muita investigação e desenvolvimento que tenha, tenho que ter a consciência, primeiro, que é difícil ter a empresa toda pendurada na investigação e desenvolvimento (…). O segundo aspeto é que, mesmo nas áreas em que há investigação e desenvolvimento, não estou a falar de um fato em que o senhor veste e diz “vou viver até aos 200 anos e por isso paga o que for preciso”. Não, estamos a falar de investigação e desenvolvimento muitas vezes dentro de determinadas faixas de preço, onde a competitividade também é importante», destacou.

Já no que concerne ao futuro da ITV, Vítor Abreu revelou alguma preocupação com o sector pós-Covid. «Haverá sempre empresas têxteis cá em Portugal, a questão não é essa. A questão é qual é a dimensão dessas empresas ou qual é a dimensão do sector», sublinhou.

Vítor Abreu, Ana Tavares, Nuno Gonçalves, Patrícia Ferreira, Jorge Fiel e Ricardo Gomes

Ana Tavares mostrou-se ainda preocupada com o curto prazo, nomeadamente ao nível do investimento. «Há muitas empresas que vão continuar a investir e que vão sobreviver a toda esta crise, mas acho que vão morrer mais pelo caminho do que aquelas que nós estamos à espera», assinalou. Antes de olhar para um futuro pós-Covid a médio ou longo prazo, a diretora de comunicação e parcerias da Smartex, realçou a necessidade de se ultrapassar o próximo ano. «Antes de chegarmos daqui a 10 anos temos o amanhã, temos o daqui um mês», explicou e, nesse sentido, é importante perceber «quais são as empresas que têm capacidade para aguentar o próximo ano de 2021 se tivermos um ano igual de 2020, continuar a investir em inovação e ainda assim continuar a pagar os salários dos seus trabalhadores sem encomendas».

Mais positivos foram Nuno Gonçalves, do Iapmei, e Patrícia Ferreira, CEO do grupo Valérius. «Se há sector que tem dado provas ao longo do histórico, ao longo de décadas de reinvenção é precisamente este», considera Nuno Gonçalves, acrescentando que embora a situação seja «verdadeiramente preocupante», os empresários da ITV « vão perfeitamente dar a volta» e cumprir a máxima de que «o que não nos derrota, só nos fortalece».

Preparar o futuro

A reforçar-se tem estado o grupo Valérius, que tem vindo a apostar paulatinamente na reciclagem e na sustentabilidade como vetor de crescimento do negócio. «Estamos numa geração completamente diferente daquilo que era no passado, temos que pensar que os nossos consumidores são estes millennials e o que eles pretendem e aquilo que eles estão à procura não é aquilo que tínhamos no passado», afirmou Patrícia Ferreira, acrescentando que não é apenas sustentabilidade mas também «inovação e acho que a indústria têxtil está nesse caminho». A empresa que lidera, por exemplo, está atualmente a implementar um processo que permite reduzir em 90% o consumo de água no tingimento, ao mesmo tempo que, em parceria com outras instituições, está a procurar, em cada produto que vende, medir «exatamente o consumo de uma peça» e «onde é que podemos, ou não, poupar recursos ao planeta».

Vítor Abreu

Já Ricardo Gomes, que fez a sua intervenção por videoconferência, salientou que conhecer os consumidores é essencial. «O grande desafio para todos nós, independentemente da posição que ocupemos na cadeia de valor, é entender o consumidor», garantiu o diretor comercial e de compras em Portugal do El Corte Inglés. «Já há algum tempo que sabemos que os consumidores são cada vez mais informados, são muito mais exigentes do que eram há uns anos e já há algum tempo, antes do Covid, eram pessoas que tendiam para uma maior racionalização no seu consumo. O que fez toda esta situação do Covid foi, de facto, apressar uma série de situações que nós já dizíamos que iam acontecer mas que iriam acontecer mais lentamente», explanou. Importante ainda é que, não só existem ferramentas que permitem conhecer melhor o consumidor, mas «por outro lado, também os consumidores nos conhecem muito bem, conseguem chegar até nós e conseguem participar e ser interativos em toda esta cadeia de valor. Só temos a ganhar se conseguirmos perceber o que é que procuram os consumidores», acredita.

Um fator que pode valorizar também o “made in Portugal”, especificou. «Temos que saber tirar proveito daquilo que é a qualidade de produzir em Portugal, de fabricar em Portugal, do made in Portugal e fazer valer essas capacidades que nós temos para subirmos na cadeia de valor para sermos cada vez mais fortes e conseguirmos chegar a mercados que dantes não chegávamos», resumiu.

Ana Tavares

Além disso, com a ascensão do comércio eletrónico, é ainda fundamental «conseguirmos atrair clientes não só para comprar online mas também para que visitem as nossas lojas. E aqui o desafio está em criar motivos de interesse que justifiquem uma visita desses clientes às nossas lojas. Obviamente que se não tivermos nas lojas os produtos que eles pretendem, da forma que eles pretendem, temos o futuro em risco», acredita Ricardo Gomes.

Governo anuncia medidas

O Fórum cumpriu ainda o seu papel tradicional de analisar o presente e alertar o Governo para as necessidades da ITV. No chamado discurso do estado do sector, Mário Jorge Machado, presidente da ATP, reconheceu o esforço do Ministro da Economia mas criticou a postura do Governo, nomeadamente no que diz respeito ao Orçamento de Estado para 2021, «que ignorou totalmente as empresas, centrando-se só no Estado, nos apoios sociais e nos serviços públicos, assim como no “Plano de Recuperação e Resiliência”, onde apenas 19% dos fundos previstos, disponibilizados pela União Europeia, se dirigem ao tecido empresarial».

Patrícia Ferreira

Sublinhando a importância da indústria têxtil e vestuário na economia, no emprego e nas regiões, o presidente da ATP enumerou como questões prioritárias a reindustrialização, a atração de investimento, o reforço dos apoios, a criação de «um verdadeiro banco de fomento» e a atualização e melhoria do Programa Capitalizar.

Numa resposta previamente gravada, Pedro Siza Vieira, Ministro de Estado, da Economia e da Transição Digital, anunciou uma nova linha de crédito às indústrias exportadoras, especialmente para as de trabalho intensivo, do Banco Português de Fomento. «Esta linha de crédito muito significativa vai permitir conceder crédito em função do número de postos de trabalho das empresas e com a possibilidade também de converter 20% do valor do crédito em subsídio a fundo perdido no final de 2021», anunciou.

Pedro Siza Vieira referiu ainda que na proposta do Orçamento de Estado consta «a possibilidade de termos a promulgação dos sistemas de apoio ao emprego, pelo menos até ao final do terceiro trimestre do próximo ano» e que, no âmbito da UE, o Governo «bateu-se e está a fazer caminho no sentido de proteger o mercado interno da UE relativamente aos produtores de países terceiros que introduzem no mercado da União produtos e componentes que não cumprem os nossos standards sociais e ambientais», algo que será relevante «na próxima revisão do regulamento do sistema de preferências generalizadas (SPG)», onde «Portugal será muito exigente», garantiu.

Pedro Siza Vieira

Quanto ao futuro, Pedro Siza Vieira afiançou estar «profundamente convicto de que apesar das dificuldades momentâneas e dos desafios estruturais, as nossas empresas do sector têxtil e vestuário saberão, uma vez mais, ultrapassar esta dificuldade, fazendo apelo aquilo que sempre distinguiu a indústria nacional neste sector: enorme disponibilidade e qualidade de serviço para os clientes, enorme flexibilidade na forma como encaramos os mercados e enorme resiliência e flexibilidade por parte das nossas empresas».

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