Pandemia acelera vendas online na Rússia

A crise de coronavírus ajudou a alimentar um aumento nas compras digitais na Rússia, colocando até cidades remotas e geladas, da Sibéria ao Estreito de Bering, no mapa do comércio eletrónico. Uma tendência que deverá manter-se no futuro, depois dos russos experienciarem a conveniência do comércio eletrónico.

Tradicionalmente incapazes de fazer entregas rápidas no maior país do mundo, onde as estradas ficam cheias de gelo e neve durante meses, os retalhistas online investiram fortemente em centros logísticos e pontos de entrega. E com os players estrangeiros em grande parte ausentes, as empresas russas estão a faturar à medida que as compras online aumentam.

O crescimento do comércio eletrónico é um desenvolvimento bem acolhido pelos economistas, que afirmam que a Rússia depende em demasia da venda de petróleo e gás, sobretudo numa altura em que as vendas a retalho, um indicador da procura do consumidor, caíram devido às medidas de confinamento que mantiveram as pessoas em casa no início da pandemia – que já matou mais de 36 mil pessoas na Rússia.

O comércio eletrónico representou apenas 1,4% da economia russa em 2019, de acordo com a empresa de pesquisa de mercado Data Insight, em comparação com 2,6% nos EUA e 5,1% na China. «O mercado de comércio eletrónico da Rússia está a crescer significativamente mais rápido do que nos EUA ou nos países maiores da UE, graças a um efeito de base de baixa penetração», explica Boris Ovchinnikov, cofundador da Data Insight, à Reuters.

Segundo as suas estimativas, o valor do mercado russo de comércio eletrónico no primeiro semestre de 2020 foi de 1,16 biliões de rublos (cerca de 12,8 mil milhões de euros).

Analistas da empresa de pesquisa de mercado Eromonitor esperam que as vendas online anuais na Rússia subam mais de 40% este ano, para cerca de 2,5 biliões de rublos, e aumentem 10% a 15% ao ano nos próximos cinco anos.

Um mercado fragmentado

A penetração do comércio eletrónico na Rússia passou de 7% do total de vendas a retalho em 2019 para cerca de 11% em 2020, embora essa taxa seja inferior à dos EUA, onde a penetração é de cerca de 19%, aponta Marija Milasevic do Euromonitor.

O mercado russo está também muito fragmentado. A Wildberries, detida por privados, lidera com 15% do mercado, segundo a Data Insight, e a Ozon, que submeteu um pedido para uma oferta pública inicial nos EUA, tem 7%.

Atrás destes surge a AliExpress Russia, uma joint-venture entre o gigante chinês das vendas online Alibaba e parceiros russos. Outros rivais incluem a empresa russa de eletrónica M.Video, a Sbermarket – controlada por uma joint-venture entre o maior banco russo, o Sberbank, e o grupo de internet Mail.Ru – e a empresa da internet Yandex.

Wildberries [©Wildberries]
A Amazon não entrou na Rússia, onde o tamanho do país – que tem 11 fusos horários – e o seu competitivo mercado nas tecnologias da informação coloca desafios. «Para cobrir pelo menos duas grandes cidades na Rússia, a empresa tem de investir fortemente não apenas na entrega mas também no armazenamento para ter artigos suficientes para manter o atual nível de qualidade», justifica Sergey Belyaev, da Sova Capital, à Reuters.

A Wildberries, que terá atraído mais de 12 milhões de novos consumidores ao seu website nos primeiros nove meses de 2020, registou um crescimento extraordinário. As encomendas entre abril e outubro subiram 490% em Chukotka, uma região remota na zona do Estreito de Bering, perto do Alasca, onde o inverno traz noites intermináveis e temperaturas abaixo de -50 ºC.

A Wildberries indicou ainda que as vendas entre abril e outubro somaram mais 385% em Ingushetia, no Cáucaso do Norte, e 239% em Buryatia, uma região no leste da Sibéria.

A retalhista, que afirma ter mais de 34 milhões de clientes, possui agora 13 armazéns e dezenas de centros de distribuição e seleção na Rússia, o que reduz os tempos de entrega no extremo oriente do país e na Sibéria.

Desafios a superar

A logística e fracas infraestruturas são grandes desafios, mas as empresas de entrega porta-a-porta têm crescido muito nas grandes cidades, com os baixos custos laborais a ajudar a manter os preços baixos.

Os clientes da Wildberries podem encomendar artigos para experimentarem em pequenos locais espalhados pelas cidades. A Ozon opera uma rede de cacifos para clientes levantarem as encomendas.

A Ozon anunciou, em março, que estava a investir 300 milhões de dólares (cerca de 253 milhões de euros) na melhoria da logística e abriu um centro logístico em Rostov-on-Don, perto da Ucrânia, para entregas no mesmo dia.

Entre abril e maio, a Ozon verificou um aumento de 84% em novos clientes ativos em comparação com o mesmo período do ano passado e as regiões fora de Moscovo representam mais de 55% do volume bruto de mercadorias, segundo os dados da empresa.

Tal como noutros países, as encomendas online de mercearia subiram durante a pandemia e o objetivo agora é reduzir os tempos de entrega ainda mais.

Yandex.Lavka [©Bloomberg/Andrey_Rudakov]
No ano passado, a Yandex lançou um serviço, o Yandex.Lavka, para a entrega de mercearia em 15 minutos. O Yandex.Lavka tem pequenos armazéns em Moscovo e usa estafetas em bicicletas, bicicletas elétricas e motas. As suas encomendas mensais ultrapassaram um milhão, em comparação com cerca de 50 mil há um ano, adianta a empresa.

A Sbermarket assevera que as encomendas em cidades como São Petersburgo, Ecaterinburgo e Nizhny Novgorod foram 15 a 17 vezes superiores no terceiro trimestre do que nos primeiros três meses de 2020. A retalhista prevê que o sector de mercearia online continue a crescer rapidamente na Rússia nos próximos anos, admite o diretor financeiro da empresa, Michael Loyko.

Já a retalhista online de mercearia Utkonos, que evidenciou um aumento de 65% nas vendas em termos anuais no terceiro trimestre, também afiança que a procura por serviços de entrega deverá continuar a subir agora que os consumidores experimentaram a conveniência das compras online.

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