Resíduos têxteis: novo negócio para a ITV

A pandemia de Covid-19 acelerou ainda mais a procura dos consumidores por produtos responsáveis e as empresas de moda estão já dotadas das ferramentas necessárias para atender a esta tendência, revela a GlobalData, que refere que os resíduos têxteis devem ser a nova matéria-prima da indústria têxtil e de vestuário.

A GlobalData, empresa líder de dados e análise que atua em sectores como o retalho, finanças, tecnologias e ainda serviços profissionais, conclui, numa recente análise, que a pandemia veio redefinir prioridades do consumo e, consequentemente, também os aspetos mais relevantes para as retalhistas e respetivas cadeias de aprovisionamento.

«A pandemia deu origem a consumidores mais responsáveis, especialmente entre os millennials e a geração Z, que estão cada vez mais a virar costas ao fast fashion em prol de produtos mais circulares e, portanto, mais sustentáveis, que foram projetados com o mínimo de desperdício e, muitas vezes, a partir de materiais reciclados», afirma Beth Wright, correspondente de vestuário da GlobalData, que considera que os negócios que pretendam obter uma melhor recuperação no pós-pandemia devem focar-se nestas novas prioridades de consumo, alargando também perspetivas. «As empresas de moda que procuram reconstruir-se melhor da pandemia e envolver-se com a nova geração de consumidores devem aproveitar o que é tradicionalmente considerado resíduo têxtil como uma nova matéria-prima», explica.

O estudo de quatro anos do Renewal Workshop, que trabalhou com líderes do sector como a The North Face e o grupo H&M, suporta a afirmação de Beth Wright, uma vez que verificou que 82% dos resíduos têxteis e de vestuário podem efetivamente ser renovados e revendidos para integrar as cadeias de aprovisionamento das marcas.

[©H&M Foundation]
Outro relatório, publicado pelo projeto Accelerating Circularity da Textile Exchange, assume uma perspetiva semelhante por considerar que os materiais pós-consumo são a «matéria-prima lógica da indústria», pois têm a capacidade de reduzir a dependência deste sector por matérias virgens, a par da redução de água, energia e produtos químicos, evitando ainda a concorrência com outros sectores por matérias-primas não-têxteis.

Explorar tecnologias

A Suécia parece liderar o processo em termo de inovação. O país possui, segundo o Sysav Group, aquilo que constitui a primeira unidade de triagem automatizada do mundo para têxteis pós-consumo à escala industrial. Com uma capacidade de separação para 24 mil toneladas de têxteis por ano, o Sysav Group garante que a fábrica recém-criada vai revolucionar a reciclagem sueca de têxteis e abrir portas a novos mercados para os resíduos têxteis.

Além disso, a Suécia também acolheu o primeiro modelo de retalho do sistema de reciclagem peça a peça, promovido pelo Hong Kong Research Institute of Textiles and Apparel (HKRITA). O sistema de reciclagem Looop foi lançado numa das lojas da H&M em Estocolmo, onde os consumidores puderam assistir às peças de vestuário a serem desfeitas em fibras e fios para conversão em matéria-prima, que posteriormente dará origem a novas peças de roupa.

A Monki está igualmente a dar os primeiros passos neste mundo sustentável, tendo acabado de lançar uma coleção cápsula de vestuário concebida com a tecnologia Green Machine, um sistema hidrotérmico capaz de separar e reciclar totalmente tecidos compostos por algodão e poliéster.

[©Monki]
No Reino Unido, o governo atribuiu recentemente 5,4 milhões de libras (6,04 milhões de euros) a um consórcio liderado pelo Royal College of Art (RCA) para estabelecer um Textiles Circularity Centre (TCC). Esta iniciativa do governo britânico irá ditar a exploração de novos métodos para transformar têxteis pós-consumo em matérias-primas renováveis e desenvolver, deste modo, novas cadeias de fornecimento.

«O futuro da cadeia de fornecimento de vestuário está à disposição. As empresas de moda não precisam de ir além daquilo que tradicionalmente consideram ser desperdício têxtil. Isto não só proporcionaria uma alternativa às matérias-primas virgens, como também constituiria um grande atrativo para essa nova geração de consumidores responsáveis ​​que exige práticas cada vez mais verdes por parte de marcas e retalhistas», resume Beth Wright.

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